Tuesday, January 30, 2007

nexus, melhor companhia

"Nem mesmo uma passagem à Europa significava muita coisa, agora, para mim. No momento, não tinha necessidade da Europa. Gostoso sonhar com ela, falar dela, pensar nela. Mas era bom estar onde estava. Sentar-me todos os dias e datilografar algumas páginas, ler os livros que queria ler, ouvir a música por que ansiava, dar uma volta, ver um espetáculo artístico, fumar um charuto quando tivesse vontade - que mais poderia pedir?"
Sexta-feira de tédio na chácara. Meia-noite, todos dormem. Injuriada, levanto-me, acendo a luz e um cigarro, e penso em cinco palavrões diferentes. Abro uma cerveja e me ajeito para o Henry Miller. Páginas ótimas, ponto alto do meu final de semana isolado. Veja isso:
"Todos os dias exigimos tormento novo. Quanto mais nos coçamos e arranhamos, melhor nos sentimos. E quando nossos leitores também começam a se coçar e arranhar, nos sentimos sublimes."
Duas cervejas depois eu começo a ficar sonolenta, e resolvo me juntar aos dorminhocos. Assim que apago a luz, eles se levantam. Seus bizarros!

Thursday, January 25, 2007

e então europa, e mais que isso, e mais que isso, e os dias, e as noites, e a lua, que é um sorriso, que é um barco no céu, e eu, toda preguiçosa, e tão tranqüila, sonhando com madri, e barcelona, e cannes, e nice, e mônaco, e veneza, e praga, e berlim, e amsterdã, e paris, e londres, e uns olhinhos azuis...

Sunday, January 21, 2007

não tem jeito...

... é ela que te mata.

o véu do cansaço

Parecia gado trôpego em pasto escasso.

Saturday, January 20, 2007

triste e bela

Parecia harpa sem corda num céu de celofane.

Friday, January 19, 2007

Tonight you fly so high up in the vanilla sky...

Thursday, January 18, 2007

... and so I got what I wanted AND what I needed...

Open your eyes, delay the pleasure...
... there's more to come!

Tuesday, January 16, 2007

O Scandalli

Não entendia todas aquelas teclas e botões, e, para mim, mais sonoro que a própria música que produzia, era seu nome, Scandalli. Dançava com uma flor vermelha no cabelo o ritmo que ressoava no meu peito, e voltava às parreiras de outrora, mel no pensamento.
Depois que o velho morreu o instrumento ficou comigo, mas não havia mais mágica no Scandalli. Até que a minha pequena o encontrou no meio dos guardados na garagem. Ela o abriu com fascínio, e batucou as teclas, linda e infantil, e dançou com uma flor vermelha no cabelo.
Um dia ela também ficará velha, e não lembrará do encanto do Scandalli. E talvez também tenha uma filha que o encontre, esquecido. Até que ele suma por completo da família, como é tudo que um dia foi especial.

Sunday, January 14, 2007

el sueño de la razon produce monstros


Goya
O sono da razão produz monstros

Saturday, January 13, 2007

Ela queria pegá-lo pelos cabelos e pedir "fala!", e furiosa com o seu silêncio de tempos gritar "fala, porra!", e dar uns daqueles tabefes até que sua boca derramasse a verdade sobre o seu ser hermético. Mas não podia, e tentou disfarçar sua insatisfação absorvendo explicações bobas que ouviu no rádio de manhã:
ele se envolve com mulheres que tiveram (ou têm) homens brutos, agressivos, que deixam marcas profundas e inesquecíveis, porque ele não quer assumir a responsabilidade de ter alguém que o ame de verdade.
ele faz o contraponto romântico, incompreendido..características que não agradam mulheres por muito tempo, porque ele gosta de causar impressões e nada além disso... uma mulher que tenha se relacionado com um tipo agressivo vai se prender por isso quase que imediatamente, até descobrir que sente falta de pulso firme!

Encerra esse caso, porra.

Friday, January 12, 2007

vê o que flutua no limbo! para nós, daqui, depois de engolir baratas e ratos, há compensação! há frio na barriga, vê? minha Laura, toda tristinha, não fique assim. há mais que cacos de vidro. caleidoscópio da minha vida, a bebedeira me faz dormir, mas continuarei falando contigo, viu? sou um pouco Trapo agora, e me deixem na minha prepotência. meu amor é dum tamanho que ningém sabe. nem eu.

Thursday, January 11, 2007

cor, cordis

Clódia, minha cara, carrapato cravado no meu crânio, você suga o que restou em mim de claro e casto. Quedo-me absorto no mal que você causa. Crédulo, ainda espero que a sua carapaça se esfacele. Mas é você que me quebranta. Cirúrgica, cortou meu elmo, e trepanou minha alma. Não há salvação quando é Clódia incrustada sem dó no coração.

Wednesday, January 10, 2007

velha canção

o músico (músico?!) medíocre arrumou uma nova rampeira, feliz que é ao lado dessas que encontra na vila, jacus da várzea, ignorantes. a única pérola que encontrou na vida, tosco que é, não soube lidar. os ignorantes são mesmo abençoados com a felicidade divina. a nós, brilhantes, desgraça, que é o preço que se paga por se ter uma cuca a mil. vocês, desgraçados, são vocês, seus porras, que eu quero por perto. esses felizes de merda que se afoguem no ordinário.

..desculpem, ando apaixonada pelo Trapo..

Tuesday, January 09, 2007

tough / foolish?

no easy mode, no cheat code, no walkthrough...

Monday, January 08, 2007

Cansei de matar orcs

- E aquela história lá?
- Ah... não dá mais...
- Mas por quê? Você era tão...
- Eu sei, eu sou ainda... mas cansei...
- O que aconteceu?
- Cansei de matar orcs...
- Ahn?
- Sabe, estava jogando videogame esses dias... acho que você vai entender a comparação.
- Tá, videogame...
- É, O Senhor dos Anéis. Introdução massa, visual bacana, jogabilidade legal, história interessante.
- Eu li o livro.
- Eu também. Mas escute. Dá muita vontade de jogar. Parece mesmo do caralho. Daí você começa a jogar e logo nas primeiras missões você tem que matar um monte de orcs antes de chegar no chefão.
- Chefão?
- É, chefão, que coisa, não conhece videogame?
- Tô tentando entender essa tua comparação...
- Os orcs são difíceis quando você não sabe direito como jogar. E o chefão é praticamente impossível. Você usa a experiência que tem com outros jogos e com o pouco que jogou desse até então... mas é difícil e frustrante, depois de todo aquele tempo e empenho com os orcs, o chefão te mata em um minuto.
- É isso?
- Não. Claro que você tenta de novo. Tenta conhecer melhor os seus golpes, armas e magias. Passa por todos os orcs mais uma vez... e morre de novo no chefão.
- Você deve ser ruim nessa coisa hein...
- Persistente, você faz isso várias vezes, muitas... até que os orcs já não são nem difíceis nem divertidos, mas enfadonhos, e o chefão vira uma obstinação quase sem sentido. Você o vê por alguns momentos, e depois de enfrentá-lo com a sua espada e flechas, ele te manda de volta pro começo num golpe fatal de sua corrente.
- Credo... você não tem uma comparação menos nerd?
- Você não entendeu? É frustrante. Cansei de não ganhar. Acho que agora só quero matá-lo. Não quero mais saber o que vem depois.

Sunday, January 07, 2007

saldo negativo

...uma conversa estranha dentro do carro tua cabeça no meu colo e eu não sou muito de encostar nas pessoas e acham que eu sou calma e às vezes que não sou daqui e ontem tudo aquilo me irritou e eu queria um pouco nem que fosse da tua tristeza e como as pessoas têm mau gosto e pulam com qualquer música com qualquer banda com qualquer gole e eu estava lá olhando pra dentro de mim tentando entender por que aquilo tudo era tão ruim e era e eu ainda não sei é coisa minha ainda acho tudo muito artificial e vazio clash de egos dinheiro mal gasto tempo pequeno e imenso pra tanto e tão pouco preferia aquele toca-fitas velho do carro e os nossos cassetes mal gravados e a tua cabeça no meu colo e uma conversa estranha é mesmo mentira que eu sou calma que eu não choro que eu não sou daqui...

Friday, January 05, 2007

amiga ancestral

você descobriu de que matéria é a saudade, essa puta que quase estrangulo tão de perto me perturba, e que também protejo, companheira antiga? "essa já nasceu com saudade", dizem, é verdade, demoniozinho aninhado na minha omoplata. cresceu mais rápido que eu, e quando eu tinha quatro anos já podia me engolir. "nasceu com saudade não sei do quê, dum tempo que nem viveu." poderei um dia matá-la?

Thursday, January 04, 2007

Resolve?

- Diga.
- Quase entendo, sabe? (ele vai pensar em melodia...)
- O quê?
- Como funciona... (ele vai pensar em métrica...)
- Quase entende como funciona o quê?
- Essas coisas... (ele vai pensar em escalas harmônicas...)
- Essas coisas o quê?
- Essas coisas... (ele já olhou pra mim dum jeito sacana...)
- Qual a dúvida?
- Não há mais dúvida... (ele acha que sabe o que eu quero...)
- Então?
- Então o quê? (eu acho que viro o jogo)
- Você acha que quase entende como funciona.
- Acho que sim. (ele em maior, verso branco)
- O quê?
- Ah... (sabe tudo, eu a pequena...)
- Você...
- É... (me beija)
- Você acha que é de verdade?
- Não. (ele entendeu o que eu entendi)
- Então?
- Estamos aqui. (provoquei?)
- Vou embora.
- (sim, é melhor) Não, fique.
- Por quê?
- Porque eu estou absurdamente... (ahn?)
- Ahn?
- Café? (o que foi isso? nem sei fazer café...)
- Café?
- Não fale mais uma vez que soa estranho. (não é verdade? café café café)
- (silêncio)
- Viu ontem?
- O quê?
- Na TV. (o quê? diabos, pense em alguma coisa)
- Não assisto muita TV.
- (nem eu) Ah... escuta... acho que eu vou dormir.
- Durma.
- (o que isso quer dizer?) Café? (ai)
- Não, durma aí. Vou lá embaixo.
- Vai mesmo? (tento a subdominante)
- Vou.
- (e a sétima?) Não apague a luz.

Tuesday, January 02, 2007

retrospectiva

Esperei dois cigarros e mais vinte minutos. Diga, é só um cara que não me dá pelota. Semibêbada, escolhi palavras ao acaso no livro que estava lendo: "chorava porém instigava sincero embasbacamento cretinice pior". Fui embora desviando as poças. Mais tarde, seminua, não lembrava o que estava fazendo no escuro. Acendi a luz, estava no meu quarto: aranhas, lagartixas e rosas, e uma estranha na minha cama. "Está olhando o quê? Acha que eu acredito na tua paz? É tudo mentira, que eu sei!" E a estranha era eu.
2006
curei um vício, ganhei dois novos.