Mal amanhecia em Curitiba e um imenso grupo de fotógrafos, jornalistas, policiais e curiosos se amontoava em volta do chafariz da praça Osório. Uma comoção quase provinciana efervescia. Podia-se ver, despontando da água turva, o contorno das nádegas de uma mulher. O indigente de plantão disse ter ouvido gritos. O porteiro do edifício Asa lembra de ter visto uma movimentação estranha na Boca do Brilho. E o ébrio do bar do Stewart afirmou que aquelas nádegas eram inconfundíveis. Tratava-se de Luana, novata no Gato Preto.
Conhecia-se a identidade da vítima, e encontraria-se o criminoso. O que ninguém sabia era que o responsável pela morte de Luana morava em Astorga e nem sabia da sua existência. Marcovaldo, poeta marginal, escrevia em um site da internet que Luana visitava diariamente. Seus poemas, de palavras pungentes, exaltavam uma vida a que Luana aspirava. Ela estava encantada pelo Marcovaldo de Astorga. Rabiscava seus versos na mão e no braço para lembrar dos seus sonhos enquanto trabalhava. Os homens até achavam sexy as marcas de Bic.
Apaixonada, Luana parecia não ver mal no mundo. Na noite da sua morte, conheceu um homem no Ponto Zero. Ele também se chamava Marcovaldo. Luana pensou ser um sinal. Inteligente, interessante, de família - morava com a mãe, disse. Sabia também um pouco de poesia, um pouco de artes plásticas, estudava matemática. Jogava bem sinuca, usava bem as palavras, olhava bem fundo nos olhos quando queria um beijo. Era um pouco tímido, um pouco irônico, e apaixonante. Pobre de Luana que não percebeu - nem poderia - que o Marcovaldo do Ponto Zero era, também, um psicopata homicida.