Tuesday, November 28, 2006

venha, pássaro

negro, moribundo, de pescoço longo, de quatro patas, que anda de bicicleta. Me leve de volta para aquele lugar de montanhas verdes onde se anda por sobre os lagos. Onde está o flautista de quem apreenderei as partituras douradas. Me leve de volta para o mundo bonito onde está o meu irmão. Pássaro moribundo, de pescoço longo. Pássaro negro que fica no telhado. Pássaro que anda, que voa de bicicleta. Pássaro que sabe o caminho. Venha.

Monday, November 13, 2006

Sobre o destino, digo o que disse cummings, "nem mesmo a chuva tem mãos tão pequenas".

Mal amanhecia em Curitiba e um imenso grupo de fotógrafos, jornalistas, policiais e curiosos se amontoava em volta do chafariz da praça Osório. Uma comoção quase provinciana efervescia. Podia-se ver, despontando da água turva, o contorno das nádegas de uma mulher. O indigente de plantão disse ter ouvido gritos. O porteiro do edifício Asa lembra de ter visto uma movimentação estranha na Boca do Brilho. E o ébrio do bar do Stewart afirmou que aquelas nádegas eram inconfundíveis. Tratava-se de Luana, novata no Gato Preto.
Conhecia-se a identidade da vítima, e encontraria-se o criminoso. O que ninguém sabia era que o responsável pela morte de Luana morava em Astorga e nem sabia da sua existência. Marcovaldo, poeta marginal, escrevia em um site da internet que Luana visitava diariamente. Seus poemas, de palavras pungentes, exaltavam uma vida a que Luana aspirava. Ela estava encantada pelo Marcovaldo de Astorga. Rabiscava seus versos na mão e no braço para lembrar dos seus sonhos enquanto trabalhava. Os homens até achavam sexy as marcas de Bic.
Apaixonada, Luana parecia não ver mal no mundo. Na noite da sua morte, conheceu um homem no Ponto Zero. Ele também se chamava Marcovaldo. Luana pensou ser um sinal. Inteligente, interessante, de família - morava com a mãe, disse. Sabia também um pouco de poesia, um pouco de artes plásticas, estudava matemática. Jogava bem sinuca, usava bem as palavras, olhava bem fundo nos olhos quando queria um beijo. Era um pouco tímido, um pouco irônico, e apaixonante. Pobre de Luana que não percebeu - nem poderia - que o Marcovaldo do Ponto Zero era, também, um psicopata homicida.

Thursday, November 09, 2006

anuncia a manhã de ontem, e de ateontem...

eu queria uma rosa, ganhei um cereus monstruosus, peguei carona num barco que não tinha nome, e acordei em outro continente. ainda estou tentando voltar.

Sunday, November 05, 2006

quem dirá que é tarde demais?

Wednesday, November 01, 2006

novembro de novo

Quero te ver livre de tuas máscaras, da membrana opaca que te cobre os olhos, quero ver além das bandeiras que empunhas e das caras dos que te têm apreço. Quero não me perder na tua juba sem aparas, nas tuas palavras que não me dizem muito, no vermelho apaixonado da tua roupa ou nas bebedeiras de fim de madrugada.
Quero só, de longe, te desnudar ouvindo um dos teus solos.

um homem apaixonado

é meio homem.